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Você sabe fazer o orçamento forrageiro da sua fazenda?

Por Rogério Marchiori Coan

Os sistemas de produção à pasto são relativamente flexíveis quanto às metas de manejo da pastagem e razoavelmente tolerantes a curtos períodos de estresse climático. Por outro lado, desequilíbrios intensos e de longa duração entre o suprimento (oferta de forragem) e demanda (consumo e perdas associadas ao pastejo) resultam em reflexos negativos ao sistema pastoril, com efeitos extremamente deletérios sobre a estrutura da pastagem e produção animal.

Fica evidente, portanto, que os sistemas com base na utilização das pastagens são complexos e, normalmente demandam uma integração de conhecimentos multidisciplinares para que se possam ser compreendidos e manejados de maneira efetiva. Cada um dos estágios de produção possui sua própria eficiência, a qual pode ser influenciada pelo manejo que, em conjunto, determina o nível de produção a ser atingido por um determinado sistema (Figura 1).



Figura 1. Representação esquemática da produção animal em pastagens.

O planejamento do sistema de produção baseia-se em informações relacionadas à projeção de crescimento do rebanho, a identificação de épocas críticas para sua nutrição (estação de monta, recria, engorda, etc.) e o estabelecimento de níveis projetados de produtividade das pastagens ao longo do ano. Além disso, o planejamento como ferramenta gerencial enfoca a previsão e a provisão dos recursos para atender as demandas que surgem na condução do empreendimento agropecuário.

O emprego de recursos na produção de alimentos, compra de insumos, máquinas e equipamentos, exigem uma previsão correta. Enquanto que a obtenção dos recursos para satisfazer as necessidades do projeto em seu dia a dia, se constitui na provisão necessária ao seu funcionamento. Essas informações permitem, dessa forma, estabelecer épocas de provável escassez ou excesso de forragem e possibilitam prever intervenções de manejo para minimizar estresses nutricionais dos animais e condições inadequadas de utilização da pastagem.

De forma contrária, a falta de planejamento adequado do sistema de produção torna improvável a obtenção de desempenho bioeconômico satisfatório para o empreendimento. Isso se deve à dificuldade do pecuarista, nessas condições, em detectar problemas em tempo hábil e implementar intervenções efetivas, harmônicas e de relação benefício/custo mais favorável.

A necessidade de manutenção dos níveis de produção animal (ganho de peso x ganho por área) é o fator determinante da demanda por alimento dentro de um sistema de produção. Sabe-se que o desempenho animal é função direta do consumo de matéria seca digestível e que, nesse contexto, 60 a 90% decorrem de variação no consumo, enquanto que apenas 10 a 40% advêm de flutuações na digestibilidade. Observa-se, portanto, que a contribuição relativa do consumo de MS para o desempenho animal é, em média, três vezes àquela relativa à digestibilidade.

Inicialmente, para que possam ser comparados, o suprimento e a demanda de forragem necessitam ser expresso na mesma unidade. Para efeito de referência, a unidade básica de cálculo é a matéria seca. Sendo assim, determina-se a demanda total de matéria seca (kg MS/dia ou kg MS/mês), em um período determinado, e para cada categoria animal e, em função disso, determina-se a estratégia de suprimento da demanda, em kg de matéria seca, para cada período do ano.

Após a quantificação da demanda e o suprimento bruto de forragem, em kg de matéria seca, deve-se realizar a tabulação ou representação gráfica dos perfis, com o objetivo de se identificar as épocas de escassez e de excesso de forragem. Com essas informações, deve-se interpolar as informações de demanda e suprimento com as épocas críticas do ano, do ponto de vista nutricional, como: período pré-estação de monta de matrizes, recria de animais, terminação em confinamento, semi-confinamento, sequestro de animais na entrada do período das águas, entre outros.

Quando fases críticas para a nutrição dos animais coincidem com períodos de balanços negativos de forragem, deve-se considerar a mudança da estratégia praticada. Para tanto, deve-se, então, avaliar a possibilidade de utilização de diferentes estratégias de suplementação ou reavaliar as metas inicialmente propostas para o sistema de produção.

Existem ocasiões em que o balanço negativo de alimento é tão drástico, particularmente em regiões onde a estacionalidade de produção da planta forrageira é muito pronunciada, que o poder de tamponamento do sistema (estoque de forragem ou reservas corporais dos animais) não é capaz de permitir a solução eficaz do problema, o que põe em risco a estabilidade de todo o sistema de produção (Tabela 1). É sob estas condições que os alimentos conservados são utilizados no processo produtivo na forma de alimentação suplementar.

Além disso, deve-se considerar a associação de tecnologias de produção (adubação das pastagens, suplemento proteico/proteico energético, suplementação concentrada, entre outros) com vistas a otimizar a utilização dos recursos forrageiros disponíveis, bem como a minimização dos custos de produção.

Para efeito de ilustração, será apresentado um exemplo de planejamento da alimentação de uma propriedade que desenvolve a engorda, no contexto que visa otimizar o uso da forragem pastejada como base do suprimento do sistema. A pastagem utilizada refere-se a Brachiaria brizantha cv. Marandu., que apresenta uma concentração média da produção de 60% no período das águas e 30% no período das secas.

* Plano: Estabelecer o planejamento da alimentação de animais em engorda semi-intensiva.
* Suprimento: Produção média anual de forragem de 9.678 kg de MS/ha/ano; com a seguinte distribuição mensal:



Demanda: Rebanho de garrotes da raça Nelore, com peso médio de 364 kg, machos não castrados e com estimativa de ganho de peso médio diário de 0,55 kg, visando a melhor eficiência do sistema de produção (abate dos animais em 12 meses de apascentamento na propriedade).

Cálculos:

* Lotação – No nível de produção planejado, cada animal deverá consumir, em média, 10,7 kg de matéria seca/dia, considerado o peso corporal inicial de 365 kg e de saída de 530 kg, após 12 meses. A eficiência de pastejo média é de 50%, ou seja, para cada animal deverá estar disponível 21,4 kg de MS/dia. A área total da propriedade é de 644 ha.

O pecuarista estabeleceu a taxa de lotação animal com base no período das águas, alocando 1.069 animais na propriedade, o que corresponde a uma taxa de lotação inicial de 1,35 U.A/ha.

É importante ressaltar, no entanto, que o sistema de produção em questão desenvolve a atividade de engorda, ou seja, no decorrer do tempo, os animais acumularão maior estoque de peso (quilos ou arrobas), condição que repercutirá em maior consumo de matéria seca e, consequentemente, em maior taxa de lotação na propriedade, com a evolução do processo produtivo.

Tabela 2. Detalhamento do cálculo do plano de alimentação anual do rebanho.



Através da sobreposição das curvas anuais de suprimento e demanda (Tabela 2), pode-se observar os prováveis períodos de déficit (-) e excedente (+) de forragem no sistema, permitindo a visualização e a quantificação do uso do estoque de forragem, como ferramenta “compensadora” dos desequilíbrios (Figura 2).

Observa-se, pela análise da Figura 2, que para garrotes com o nível de produção pretendido, a meta em termos de reserva ideal (massa média de forragem ao longo do ano) por hectare é de 1.400 kg MS/ha, a qual deve ser “respeitada e restabelecida por ocasião do novo ciclo de produção (1º de Janeiro do ano seguinte). Como limites superiores e inferiores do nível de estoque, são admissíveis valores da ordem de 2.200 e 1.400 kg de MS/ha/mês.



Figura 2. Balanço anual entre suprimento e demanda, em kg de MS/ha, ao longo do ano.

O impacto do balanço entre suprimento (kg MS/ha/mês) e demanda (kg MS/ha/mês) sobre a reserva de forragem na propriedade (kg MS/ha) ao longo do ano (Tabela 2) é uma consequência da magnitude e do tempo de ocorrência de cada um dos déficits e excedentes do sistema de produção.

A análise dos dados acima revela que há uma redução considerável no estoque de forragem durante os meses de abril a dezembro. Tal condição é facilmente justificada pelo “represamento” de animais ao final do ano, condição que extrapola a capacidade de suprimento do sistema, além de gerar perda de eficiência produtiva (perda de peso dos animais) da propriedade, caso grande parte dos animais não sejam vendidos em tempo hábil para início do novo ciclo produtivo (ano) ou sejam suplementados ou confinados.

Na Figura 2, pode-se observar que tomadas de decisão de manejo e estratégias de condução e manipulação do rebanho afetam de maneira determinante a eficiência e o equilíbrio do sistema como um todo. Assim, a alteração da lotação animal permite um ajuste no sentido vertical da curva de demanda ao longo do ano, condição pela qual a variável “taxa de lotação” é de fundamental importância, como ferramenta de manejo da pastagem, especialmente no que diz respeito à utilização da forragem produzida. Diante disso, o manejo visando à qualidade e quantidade de forragem, compatível com as exigências nutricionais dos animais se torna mais crítico à medida que a variação em sua produção e o nível de intensificação da exploração aumentam.

De maneira geral, esta variação extrapola déficits e excedentes de produção, bem como taxas de lotação mais altas, que tornam o sistema de produção mais sensível a essas variações no decorrer do ano. O ajuste ideal para cada situação dependerá, portanto, da capacidade técnica e crítica para solução de problemas por parte do técnico ou “manejador”, assim como dos objetivos e metas previamente definidos e, à serem alcançados.

É perceptível que alterações na capacidade de suporte visando o tamponamento nutricional podem e devem ser executas de forma imediata gerando, por isso, efeitos quase que imediatos sobre o equilíbrio do sistema.

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