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Diferimento estratégico de pastagens – como e quando fazer?

Por Rogério Marchiori Coan

Na maioria dos sistemas de exploração de pastagens é praticamente impossível manter constante a oferta de forragem de alta qualidade durante o ano todo, uma vez que a estacionalidade de produção forrageira determina oscilações marcantes na oferta quantitativa e qualitativa (Figura 1). Diante dessa condição, tem-se uma repercussão zootécnica correspondente, onde ocorre oferta excessiva de produtos de origem animal (carne e leite) nas épocas em que é grande a dificuldade em manter o processo produtivo.



Gráfico 1 - Estacionalidade de produção forrageira

Em um sistema de produção contínua de carne, que pretende ser eficiente e competitivo, torna-se essencial eliminar as fases negativas, proporcionando condições ao animal para se desenvolver normalmente, durante todo o ano, afim de que se alcancem as condições de abate, peso e/ou terminação e produção de leite mais precocemente. Para isto, faz-se necessário manter o suprimento de alimento em equilíbrio com os requerimentos dos animais.

Neste contexto, uma das tecnologias de melhor aplicação e melhor relação benefício/custo é a utilização do pastejo diferido. Esta tecnologia consiste na reserva estratégica de uma ou mais áreas do sistema de produção, para que se obtenha um maior acúmulo de massa de capim a ser utilizado no período seco, visando diminuir a diferença existente na taxa de lotação animal entre a estação das águas e a seca.

Em condições práticas e em qualquer área sob pastejo, quer seja em uma pastagem cultivada ou natural, a produção animal por unidade de área (ganho de peso) é uma função da produção por animal e da taxa de lotação, ou seja:



O número de animais por hectare que pode ser suportado pela pastagem por unidade de tempo é, basicamente função da produção de forragem, que será condicionada pelos fatores edafoclimáticos e das características inerentes à espécie forrageira.

Para o sucesso do pastejo diferido, algumas restrições devem ser consideradas ou observadas, como: espécie forrageira, manejo da área antes do diferimento e estratégia nutricional.

A espécie forrageira é o fator mais importante no sucesso da implantação do pastejo diferido. Espécies de crescimento ereto, como gramíneas do gênero Panicum e Penissetum têm uma grande restrição ao diferimento, uma vez que estas, ao serem diferidas apresentam uma grande quantidade e proporção de caule, fator este que limita consideravelmente o consumo da forragem pelos animais no período seco do ano.

As espécies de crescimento prostrado, como gramíneas do gênero Brachiaria e Cynodon são as mais recomendadas, uma vez que quando diferidas não apresentam limitações de consumo pelos animais, pois acumulam maior quantidade de folha em relação ao caule.

O manejo da área antes do diferimento influi significativamente na composição da pastagem na época de acesso dos animais. Áreas manejadas com altura de resíduo pós-pastejo maiores ou em subpastejo, tendem a apresentar maiores quantidades de caule, enquanto que áreas manejadas com alturas de resíduo pós-pastejo menores, apresentam menores quantidades de caule e conseqüentemente, melhor valor nutritivo. Dessa forma, o manejo ideal para o diferimento é aquele em que antes da época de reserva (fevereiro/março) seja efetuado um pastejo na altura de manejo recomendada para espécie em questão (Tabela 1).

Na sequência deve-se realizar, se possível, a adubação nitrogenada, com doses que podem variar de 20 a 30 kg de N/ha. Exemplificando, em uma área de 40 hectares de Braquiarão (Braquiaria brizantha cv. Marandu) e tendo como adubo base a uréia (45% de N) a adubação deverá ser de 45 a 67 kg de uréia/ha.

Tabela 1. Altura de manejo de algumas gramíneas utilizadas para o diferimento.



Para efeito de planejamento, o pecuarista deve escalonar o diferimento das áreas de pastagem de acordo com o critério de utilização. De maneira geral, recomenda-se que 1/3 da área a ser utilizada seja diferida no mês de fevereiro e 2/3 da área no mês de março. Com isso, as áreas diferidas em fevereiro serão utilizadas no inicio das secas e as de março no meio até o final das secas.

Com relação ao manejo nutricional a ser adotado após o diferimento das áreas de pastagens, vale lembrar que a estratégia nutricional deve estar diretamente relacionada com o objetivo a ser atingido. Nesse sentido, pode-se fazer uso do suplemento mineral com uréia, suplemento proteico de baixo consumo, suplemento proteico energético de alto consumo e da suplementação concentrada. No entanto é importante lembrar que o sucesso de qualquer programa nutricional está intimamente relacionado com a elevada disponibilidade de capim, e está associada a uma taxa de lotação adequada, que será definida em função da categoria animal, área diferida e do período de ocupação.

Para os pecuaristas que priorizam que os animais obtenham manutenção do peso vivo, recomenda-se a utilização do suplemento mineral com uréia (30% uréia), com consumos médios estimados em 0,03% do peso vivo. Ou seja, um animal de 450 kg deverá consumir ao redor de 135 g de suplemento com uréia/dia. Em relação ao suplemento proteico de baixo consumo, a ingestão ficará ao redor de 0,1% do peso vivo, proporcionado ganhos de peso pouco expressivos (100 a 300 g/dia). Todavia, a suplementação com suplemento proteico energético de alto consumo, onde a ingestão situa-se a 0,3 a 0,5% do peso vivo, o ganho de peso pode ser moderado (400 a 600 g/dia). Em condições onde a suplementação concentrada com 0,6% a 1,0% do peso vivo é realizada, o ganho de peso pode chegar 1,3 kg/dia, desde que a formulação do suplemento seja ajustada de acordo com as características da pastagem.

Por fim, é importante lembrar que associado a estas informações, há ainda que se considerar os aspectos relacionados à estrutura da propriedade (cochos, bebedouros e aguadas), manejo dos animais, alimentos utilizados na formulação do suplemento, doses dos aditivos, características do suplemento e custos, uma vez que é em função dessas variáveis que a tecnologia terá ou não viabilidade econômica em sua adoção na propriedade.

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