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Problemas metabólicos no confinamento

Por Rogério Marchiori Coan

O confinamento de bovinos é caracterizado como sendo um sistema de produção em que lotes de animais são encerrados em piquetes ou currais com área restrita, tendo acesso aos alimentos e água através de cochos e bebedouros. Assim, o confinamento pode ser utilizado estrategicamente para todas as categorias do rebanho, embora, seja mais comumente utilizado no Brasil para a terminação de bovinos de corte.

Como qualquer outra tecnologia adotada visando o incremento dos níveis de produção animal (ganho de peso), o confinamento possibilita a ocorrência de problemas inerentes a sua própria condução, estando estes normalmente relacionados ao animal, às instalações e a maioria deles ao próprio manejo nutricional.

Basicamente, o problema tem início na formulação da dieta, onde muitas vezes a falha ou falta de critério técnico na adequação dos níveis nutricionais às exigências dos animais, bem como a não utilização de aditivos ionóforos ou promotores de eficiência alimentar, acabam repercutindo nos chamados distúrbios ou problemas metabólicos. De maneira geral, existe uma correlação muito estreita entre esses distúrbios, e um deles pode desencadear em vários outros. Com isso, aumenta a dificuldade no diagnóstico preciso do problema, e consequentemente, a tomada de medidas que minimizem a sua ocorrência.

Dentre os distúrbios metabólicos de maior incidência nas nossas condições, podemos citar os seguintes: Acidose, Timpanismo, Laminite e Intoxicação por uréia.

A Acidose é um distúrbio conhecido também por sobrecarga ruminal, impactação do rúmen ou indigestão por carboidratos, geralmente em conseqüência do consumo excessivo de grãos (milho, sorgo, farelo de soja, farelo de trigo, aveia, etc.) ou concentrados com elevado teor de carboidratos fermentescíveis. É caracterizada pelo aumento na produção do ácido lático no rúmen. Inicialmente ocorre um decréscimo do pH ruminal em função da produção excessiva de ácido lático. O ácido lático produzido é então absorvido pela parede do rúmen e chega a corrente sanguínea, caracterizando, assim, a acidose. Como conseqüência, tem-se a paralisia da movimentação ruminal, desidratação, diarréia, perda do apetite e quando não é efetuado o tratamento curativo, o animal pode até chegar a morte.

Em relação ao Timpanismo, este é caracterizado como sendo uma superdistensão do rúmen por gases de fermentação. O animal é incapaz de expulsar os gases produzidos através dos mecanismos fisiológicos normais (eructação), acarretando um quadro de dificuldade respiratória e circulatória, com asfixia e possibilidade de morte do animal.

Diversos alimentos, como algumas plantas leguminosas, resíduos da pré-impeza do grão de soja e outros podem favorecer o aparecimento do Timpanismo. Outros fatores que também favorecem a ocorrência do Timpanismo são: frequência da alimentação inadequada, alternância de super e subfornecimento de concentrados, em especial dos finamente moídos e mudanças bruscas de dieta. Os animais com Timpanismo apresentam distensão do flanco esquerdo, inquietação manifestada pelo bater anormal da pata no chão, micção e defecação frequente, extensão para frente da cabeça e do pescoço.

Em relação à Laminite, esta é definida como sendo um processo inflamatório agudo das estruturas sensíveis da parede do casco, que resulta em claudicação e deformidade permanente do casco. Os cascos afetados apresentam-se quentes, com crescimento excessivo e com sinal visível de inflamação acima deles, caracterizado por hemorragia e edema. O animal apresenta relutância em se mover, permanecendo deitado a maior parte do tempo. Isso ocorre devido a dor provocada pela inflamação dos cascos.

A Laminite é uma situação decorrente da ingestão excessiva de grãos, embora também possa estar associada a fatores genéticos, idade, umidade excessiva e stress térmico. Além de altas proporções de concentrado na dieta, a Laminite está associada à baixa qualidade e quantidade de fibras, que tem efeito de estimular a produção de saliva no animal e de neutralizar os ácidos produzidos no rúmen. De maneira geral, a literatura relata que a acidose e a Laminite parecem estar estatisticamente relacionadas, mas nem toda a Laminite é decorrente da acidose.

No que se refere a Intoxicação por ureia, esta é utilizada frequentemente como fonte de nitrogênio não proteico na alimentação de bovinos e geralmente proporciona redução no custo das dietas. Entretanto, quando utilizada de forma errada, a ureia deixa de ser uma aliada e passa a se tornar uma grande vilã, acarretando intoxicação e até a morte dos animais.

A maioria dos casos de intoxicação por ureia ocorre em função do consumo em quantidades acima da recomendação e/ou em curto período de tempo, decorrente do excesso de ureia na formulação ou da falta de homogeneização da ureia com os demais alimentos fornecidos. A dose de 40 a 50 g de ureia/100 kg de peso corporal em um curto período de tempo pode ser fatal para os animais não adaptados; já os animais adaptados toleram duas ou três vezes essas quantidades.

A adaptação dos animais deverá ser realizada em um período de sete a dez dias, onde inicialmente será fornecida metade da recomendação máxima de uréia para o animal. Como exemplo, se foi preconizado por um técnico que um animal deve ingerir 80 g de uréia/dia; no período de adaptação, o mesmo animal receberá somente 40 g de uréia/dia e somente após estar adaptado, é que o mesmo receberá as 80 g de uréia/dia preconizadas.

No entanto, caso algum animal venha a se intoxicar e apresentar inquietação, perda da coordenação motora, agressividade, salivação excessiva, tremores musculares, convulsão, defecação e micção frequente, o tratamento recomendado é forçar a ingestão de quatro a oito litros de vinagre/100 kg de peso corporal, devendo-se repetir o tratamento após 1 hora, dependendo da quantidade de uréia ingerida.

Por fim, resumidamente os problemas metabólicos que ocorrem no confinamento de bovinos podem ser evitados quando os princípios básicos de manejo nutricional são respeitados, bem como a observações dos momentos críticos, como: início do fornecimento da dieta, elevação dos níveis de concentrado na dieta, mudanças nas condições climáticas e quando os animais estão extremamente famintos devido a problemas da alimentação (quebra da misturadora de dieta total) e outros.

O respeito aos princípios básicos dessa atividade, alguns deles apontados nesse breve artigo, permitem que o confinamento seja uma etapa favorável nos sistemas de produção de bovinos de corte. Esse “respeito” não é só relativo ao manejo alimentar, como também ao manejo do próprio animal, visando mantê-lo o mais confortável possível e com um mínimo de estresse, de forma que o mesmo possa expressar todo o seu potencial genético para produção de carne de qualidade.

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