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Viabilidade do Confinamento em 2015 (Avaliação Parcial – 1º Semestre)

Por Rogério Marchiori Coan e Lygia Pimentel

O ano de 2015 se inicia com um cenário econômico bastante conturbado. Por uma lado observa-se baixa oferta de animais para abate e uma remuneração da arroba bastante satisfatória, por outro, tem-se um custo de reposição extremamente elevado, exportações em queda, consumo interno baixo, insumos precificados e óleo diesel na alturas. Parece que a volatilidade e as incertezas tendem a comandar o “espetáculo” da pecuária em 2015. Para o confinador a dúvida que surge é se o confinamento terá viabilidade econômica no ano de 2015? Para responder à essa pergunta, simulamos os custos e resultados do confinamento nas diferentes praças pecuárias já tradicionais na operação de confinamento, além daquelas onde a tecnologia se encontra em expansão, como os Estados de Tocantins e Pará. Para isso, vamos analisar os preços e custos dos principais itens que compõem a operação do confinamento nos estados de São Paulo (SP), Minas Gerais (MG), Mato Grosso do Sul (MS), Goiás (GO), Mato Grosso (MT), Tocantins (TO) e Pará (PA).

Para o boi magro ( 360 kg - 12@), a cotação da Coan Consultoria dessa semana indicou essa categoria animal bastante valorizada nas praças pecuárias pesquisadas, conforme demonstrado na Tabela 1.



Em relação ao custo de operacionalização (depreciações, manuseio e distribuição da dieta) este foi estimado em R$1,31/cabeça/dia para todos os Estados, tendo como referência a base de dados da Coan Consultoria para o ano de 2015.

Para os insumos, observa-se que, diferentemente dos anos anteriores, retirarmos o bagaço de cana como item de composição das dietas, uma vez que com a cogeração de energia pelas usinas de açúcar e álcool esse ingrediente tornou-se quase proibitivo de ser utilizando nas dietas de confinamento. Nesse sentido, substituímos o mesmo pela silagem de milho, de forma que as simulações pudessem ser realizadas.

A Tabela 2 demonstra os preços e custos (silagem de milho e silagem de sorgo) dos insumos para as diferentes praças pecuárias.



Diante dos preços e custos dos insumos para cada Estado, procurou-se simular as dietas com maior eficiência produtiva e econômica, utilizando-se, para tanto, do software LRNS (Large Ruminant Nutrition System). Os animais considerados no cálculo são da raça Nelore, com peso inicial de 360 kg (12@), peso final de 530 kg (19,02 @ - Rendimento de Carcaça = 54,0%), tamanho corporal médio, machos não castrados e com desempenho da ordem de
1,66 kg/dia. O consumo de matéria seca estimado no período (102 dias) de confinamento foi de 10,57 kg de MS/dia. Com essas informações, realizamos os cálculos de custo da arroba produzida e da arroba engordada no confinamento, conforme pode-se visualizar na Figura 1.



Ao se analisar a Figura 1, é possível constatar que diante de uma maior precificação do boi magro e, parcialmente dos insumos, maior foi o custo da arroba produzida para o Estado de SP. Já para a arroba engordada, observa-se que no Estado do PA esta variável apresentou-se maior, sendo tal fato atribuído à maior precificação dos insumos e do custo de produção da silagem de milho.

Em relação à composição do custo operacional total (COT) no confinamento, na Figura 2 pode-se observar a representação percentual dos mesmos, por Estado.



Situação contrária foi observada no Estado do MT, onde tivemos os menores custos para a arroba produzida e arroba engordada, respectivamente. Observa-se para este Estado custo de dieta (R$/kg MS) bastante competitivo, quando comparado com os demais Estados confinadores.

Ao analisarmos a Figura 2, pode-se observar que quanto maior o preço do boi magro e dos insumos, maiores foram as participações desses componentes no COT. Em SP, estado com maior precificação do boi magro, tal variável representou 72,61% do COT. Observa-se que, de maneira geral, os alimentos representaram de 18,61% (MT) a 26,30% (PA) dos custos e o boi magro de 66,28% (MS) a 73,68% (MT).

Para o cálculo do lucro operacional (R$/cabeça) consideramos os preços dos insumos e do boi magro, cotados em 12 de fevereiro de 2015. Para a remuneração da arroba, consideramos diferentes cenários, partindo de uma remuneração mínima de R$130,00/@ e máxima de R$150,00, com variação de R$5,00/@. Na Figura 3 pode-se avaliar a estimativa do lucro operacional/Estado, diante dessas variáveis.



Na Figura 3, pode-se avaliar que com a remuneração mínima de R$130,00/@, com exceção dos Estados de SP e MS, a operação de confinamento implicou em lucro operacional. Com uma remuneração de R$140,00/@, em quase todos os Estados foi possível viabilizar o confinamento e com margens de lucro relativamente interessantes, principalmente para os Estados de GO, MG, MT, TO e PA. Já com o mercado do boi gordo cotado em R$145,00/@, em todos os Estados avaliados, com exceção de SP, o confinamento se tornaria uma atividade interessante do ponto de vista econômico, deixando rentabilidade para o confinador (Figura 4) muito acima de outras oportunidades financeiras no mercado.

Já com a remuneração da arroba na casa dos R$150,00 observa-se números impressionantes de rentabilidade (% no período), uma vez que as mesmas recorrem a um período médio de confinamento de 102 dias. Um período curto para se ter margens tão elevadas. A questão que surge então é: “Será que a arroba em 2015 vai permanecer nesses patamares ou vai além do esperado? Está aí uma boa pergunta, não é?



É importante lembrar que na entressafra conta-se com uma oferta mais restrita de bois magros e, logicamente, dos insumos também, pois estamos atualmente com oferta restrita de grãos, haja vista a transição das safras no Brasil. Com isso, é natural que os custos do confinamento aumentem no período, independentemente do Estado em que se localiza a operação. Além disso, para o pecuarista que usa o confinamento como estratégia, dificilmente teremos os animais de 12 @ chegando ao confinamento tão precificados, ou seja, é natural que nos sistemas de recria/engorda ou ciclo completo o boi magro tenha um custo menor de produção, aliás é exatamente essa a vantagen desses sistemas, quando comparado com o confinamento negócio, que parte do principio de comprar os bois e os alimentos no mercado. E daí, vale o preço e a oferta do dia.

Em termos de preços e comportamento de mercado a perspectiva é positiva por enquanto. Apesar da expectativa de custos acelerados devido à alta do Dólar, inflação, crise hídrica, novos impostos, aumento dos combustíveis, salários, etc., o efeito do descarte de fêmeas entre 2011 e 2013 ainda pode e deverá continuar a ser sentido.

Assim sendo, teremos bois em 2015, mas ainda não com excesso de oferta. Isso fica claro especialmente quando observamos o comportamento do abate de fêmeas. A curva do abate de fêmeas alterou claramente sua tendência para baixo, o que confirma o início da retenção de matrizes para a produção de bezerros, por sua vez, desencadeada por margens melhores.

É verdade que o abate também esteve acelerado em 2014, o que favoreceu preços mais altos, mas isso certamente foi combinado com uma disponibilidade discretamente menor de animais em relação aos dois anos anteriores. Isso pode prejudicar as margens da indústria: consumo interno enfraquecido e menor disponibilidade de animais, algo que já está acontecendo.

Dito isso, vamos aos fatos. O ano não começou bem para a indústria. Com as chuvas abaixo da média para o período, a safra tem sido comprometida ao mesmo tempo que escasseou o boi confinado. As escalas de abate encurtaram, a oferta está enxuta. Na ponta consumidora, mais problemas: ressaca de fim de ano, IVPA, matrícula das crianças, material escolar, etc. E para completar o cenário, o “pacote de maldades” anunciado pelo governo: volta da CIDE, aumento das tarifas de energia elétrica, ajuste da gasolina... Ah, sim, ia me esquecendo: problemas com as exportações para a Rússia e a Venezuela decorrentes da crise do petróleo.

A expectativa, portanto, é de consumo capenga ocasionado por fatores como inflação e desemprego voltando à tona, aumento de impostos, ajuste de tarifas de energia e preço de combustíveis... seria assunto para um livro.

Tal cenário configura uma ameaça ao consumo de carne vermelha, infelizmente. Existe uma altíssima correlação entre o salário do brasileiro e o consumo de carne, da ordem de 0,5/1,0. Isso significa que a cada 10% de incremento sobre o salário, cresce 5% o consumo de carne bovina. O contrário também é verdadeiro. Um primeiro movimento resultante da perda do poder de compra (inflação) deve ser a substituição de proteínas mais caras por aquelas de menor valor, como o frango e os ovos. Se o cidadão consumia três bifes por semana, pode passar a consumir dois. Se consumia dois, pode passar a consumir um, e por aí vai.

Um grande fator de risco reside na manutenção do cenário desfavorável, que em um segundo momento poderia desacelerar o consumo de proteínas como um todo, inclusive aquelas provenientes de animais com maior eficiência alimentar. Portanto, não há muito o que esperar em termos de expansão do consumo interno. Como citado anteriormente, a expectativa é de que o PIB brasileiro retraia -1,5% e que a inflação chegue ou supere 8,0%; o que deixa nuvens negras sobre o consumo interno.

Ao mesmo tempo, não é o fim do mundo. A economia trabalha com grande inércia, ou seja, é como manobrar um grande transatlântico sobre o oceano. Demanda tempo e energia para poder mudar o rumo completamente, portanto, ainda temos certa sustentação que, se combinada a uma oferta baixa, deve manter os preços firmes (mas não tanto quanto ocorrido em 2014).

As exportações também podem ajudar a aliviar a carga pesada da economia brasileira e não podemos reclamar de 2014 em relação a isso. Com o Dólar firme, nossa competitividade foi favorecida frente aos concorrentes. Quanto mais vale a moeda dos gringos, mais eles podem comprar com o mesmo dinheiro. E aí levamos a melhor, pois temos volume a oferecer.

O status sanitário também nos ajudou a manter bons parceiros, como Rússia, Venezuela, Egito, Irã e Hong Kong.

Para 2015, ainda pairam bons ares, porém com algumas ressalvas importantes.

Sob o aspecto positivo, temos concorrentes com problemas: Estados Unidos com menor oferta e preços internos da carne em alta, bem como a Austrália que também recompõe seu rebanho gradualmente.

Os embarques para a China devem se intensificar conforme forem habilitadas novas plantas (hoje temos apenas 8). Os Estados Unidos ensaiam o início da compra de carne brasileira, bem como Indonésia e Taiwan. Há rumores sobre Arábia Saudita e Japão retomando suas compras, o que poderia equalizar a enorme perda que já estamos tendo com a ausência do mercado russo nas compras de carne brasileira.

Com a forte queda do preço do petróleo e com os embates contra a Ucrânia, uma crise se alastra sobre o mercado russo e já traz impactos sobre nossos embarques para aquele que é nosso maior mercado em termos internacionais. Entretanto, fica claro que o país não é autossuficiente no abastecimento de carne bovina. As tentativas daquele governo de impulsionar a produção pecuária falharam e dificilmente eles abandonarão completamente o mercado brasileiro. Assim sendo, no caso da Rússia, as perdas deverão ocorrer especialmente em termos de valor agregado ao produto embarcado.

Não tem sido um ano fácil de projetar. Medidas econômicas tomadas pelo governo até o momento não satisfizeram o mercado em termos de confiança. Há uma crise gravíssima de imagem e muito dinheiro mal gasto. Prova disso é o Dólar, cotado hoje em R$ 2,85; maior valor dos últimos dez anos. É o sinal de que ninguém quer se arriscar apostando no Real, uma moeda que, além de exótica, pertence a um país entrando em colapso econômico.

Isso favorece as exportações, mas complica o consumo interno, que hoje responde a aproximadamente 80% de nossa produção.

Por outro lado, a oferta de animais entra na contramão disso. Com o descarte de fêmeas entre 2011 e 2013, podemos ter um bom ajuste em termos de disponibilidade, o que equilibraria a balança dos preços, permitindo até mesmo que o boi se valorize acima da inflação. É cedo e arriscado dizer, mas nossas projeções apontam alta real de 6% em relação aos preços para a entressafra de 2015, quando comparada ao mesmo período de 2014. Isso significa que há chances de a arroba atingir os R$ 150,00 em São Paulo em determinado momento.

A questão é: mesmo que isso não ocorra, temos um cenário interessante. A média da entressafra de 2014 foi de R$ 126,50/@ para São Paulo.

Na BM&F, a média projetada para a entressafra de 2015 é R$ 145,50/@. Descontada a inflação esperada, temos um valor mais próximo da realidade para 2015 em R$ 133,80/@, tomando como base o ano de 2014 para fins comparativos. E isso representa a nossa alta real de 6%. Sem considerar a inflação, a alta nominal é de 15%, portanto, ainda um ano interessante para o setor.

Na média, a alta nominal entre safra e entressafra fica em 10,65%, portanto, dentro de nossas previsões. Isso combinado à análise dos custos ainda pode render negócios lucrativos para 2015.

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